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Mostrando postagens de junho, 2020

Resposta ao rio

Olê, mulhé rendeira, olê, mulhé rendá...

"Tu me ensina a fazê renda..." Dona Maria em seu quarto, na janela, no quintal. Lavando roupas, cozinhava. Cozinhando, varria o chão. Como tantas Donas Marias, seguia a vida trabalhando, se doando para a rotina, repetindo um destino traçado no dia em que nascera e fora chamada de menina. Mas não era assim para mim, eu, uma guria pequena e magrelinha como tripa, vivia a observar Dona Maria. Visitava com frequência sua casa, ganhava chocolates, bala e bolacha. Acho que ela pensava que era isso que me fazia voltar e ficar ali. Sim, eu comia tudo, nunca fui de dispensar doce. Mas o que me remexia era ouvir aquela mulher, que parecia não caber na própria pele quando desatava a cantar. Dona Maria era bem maior que a vida que levava. E meus olhos brilhavam sem piscar, refletindo a luz que vinha dela, de uma força ancestral, com uma voz que só poderia mesmo ser de Maria. E que não tinha limite em seu quintal. As cantigas nordestinas chegavam também à minha janela, na outra rua. Quan...

Sementes

Nos querem em luto Lutaremos Nos querem caladas Gritaremos Nos querem em banzo Dançaremos Nos querem bem longe Ficaremos Nos querem amargas Amaremos Nos querem em casa Voaremos Nos querem o sangue Sorriremos Nos querem inférteis Ensinaremos Nos querem chorando Debocharemos Mandinga Faremos Paixão Pulsaremos E se nos matarem Sementes seremos. (outubro de 2018)