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Dia desses...

Entrei em uma casa bonita, atravessei por dentro e cheguei ao quintal, nos fundos. Lá estavam eles: dois meninos pretinhos, gêmeos, meus filhos. Eles brincavam no chão com objetos e plantinhas. Fiquei ali, junto da pessoa que mora com eles, da qual não pude ver o rosto. Cheguei a outro espaço,  bem aberto  e com muitas pessoas. Lá estava ela: alta, magra, cabelos cacheados e bem compridos, aos 16 anos, de jeans e blusinha, minha filha. Não me reconheceu. Minha filha, mas não me reconheceu. Me enchi de culpa, meus olhos de lágrimas. Alguém deu um toque pra ela "olha quem tá aqui...". Ela, enfim, sorriu pra mim e abriu os braços se entregando aos meus. Aí chorei, muito emocionada. Estou na casa da minha vó, Dona Hilda. Ela está apreensiva e me diz em tom de puxão de orelha: " você precisa ir buscar o bebê ", pulo assustada " que bebê???". Ela me explica que eu pari um bebê e deixei na maternidade. Eu não me lembro, mas se vovó tá dizendo... Estou agora em ...
O amor é um grande mistério e também está num cafezinho que você passa pra ela de manhã. 

Tempo de jardim

  É domingo. Tânia varre a frente da casa, um afazer rotineiro e um momento que ela aproveita  para pensar na vida, planejar as aulas da semana,  cantarolar... Geraldo, seu vizinho, está do outro lado da mureta e observa os movimentos de Tânia. Ele tem seus afazeres também, mas, como já disse, é domingo, e esse é um dia que Geraldo vive com muita tranquilidade.  - Vai um cafezinho, Tânia? - Ah, Fica pra outro dia, Geraldo, já tomei o meu cedinho e daqui a pouco chegam as crianças. As crianças de Tânia já são bem grandes e já têm até outras crianças. Seus filhos, netos e noras vem visitá-la todos os domingos. Almoçam, brincam, discutem, lavam louça e levam marmitas para a segunda-feira. Já de noitinha, seu filho Tião arruma a cozinha enquanto a neta adolescente dá um jeito na impressora da qual Tânia se queixara. Na despedida geral, o pequeno Bernardo, como sempre, não quer ir embora da casa da avó. Ela ama a birra de amor do moleque, mas não pode deixar ...

Mosaico

 Eu tenho muita história pra contar. Mas não hoje. Me dedico agora e outra artesania. Estou juntando cacos. Cacos de vidro, louça, cerâmica, azulejo. Ando por aí e os encontro sem querer. Na calçada, na sua casa, no bloquinho de carnaval. Eles caem em mim como confetes, eles também arranham meus pés descalços quando piso cansada no chão da praça. Sabe aquele mosaico que sua mãe fez na mesa de pedra? Estou também fazendo um. Tem muitas cores, tem tampinhas, tem miçangas, tem brilho, tem lascas que expõe ladinhos não pintados, e entre eles tem espaços, vãos que podem ser rios de sentimentos ou simplesmente silêncios. Cores frias, cores quentes, preto, branco. No cantinho, sem querer, juntei tantos cacos da mesma cor magenta que formou-se um coracão. Que bobeira, né, essa figura coração que nem com um se parece. É a mesma coisa que a gente faz com o amor. Inventa um formato falso menos complexo, mais fácil de desenhar. Faz parte da empreitada humana no mundo querer entender o amor...

Conto urbano

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  Foto de May Agontinmé O homem caminha para frente, puxando um carrinho bem cheio. Dentro do carrinho, matéria. Dentro do homem, só calma. Mesmo com a garoa que cai, mesmo com a noite que vem lentamente. Observa a placa de “para” e segue. Atravessa a rua atrapalhado pelo tráfego. Madeira, papelão e latinhas pesam. Encontra um obstáculo para subir à calçada, supera-o. De repente, para e abaixa-se olhando para o chão, parece procurar alguma coisa ou alguém ali embaixo, olha para longe por onde passou, deve estar sentindo falta da cachorrinha que ficou com medo da chuva.                  Aproveita a parada para organizar as coisas: madeiras nos cantos, materiais mais leves no centro, maiores embaixo, pequenos por cima, ajeita tudo aquilo como um mestre de tetris das ruas. Enterra o boné na cachola. A chuva o convida a tomar rumo. Segue, segue, segue... Quase saindo de nossas vistas, de nossas vidas... cu...

Maputo, a terra dos Poetas D’alma

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  Quem esteve por perto sabe que minha última virada de ano foi marcada por uma tempestade emocional muito pesada que me paralisou e me fez recalcular a rota. A tempestade se atenuou quando decidi que deixaria de dedicar tantas horas da minha vida à escola e voltaria a me nutrir de arte. Parece que ela, a tempestade, só queria mesmo me guiar em direção a mim mesma. O convite de Féling Capela @felingcapela para participar do Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas , Poetas D’alma @poetasdalma , em Maputo, capital de Moçambique foi um presente para mim. E um sinal de que eu havia decifrado bem a mensagem.   O curta “Mergulho” @mergulho.ofilme , do Marton @martonolympio, também foi aprovado e seguimos juntos para mais essa aventura. Depois de tantas vezes que viajamos para descansar e conhecer lugares, desta vez estaríamos juntos também a trabalho. O visto quase não aconteceu, chegamos a achar que não conseguiríamos mais, até que Ogum se fez presente e na se...

Samba de abraçar

Quando o silencio vier e for só contratempo entre acordes de sol  E o meu pranto for canto e meu grito entoado couber no violão Quando eu parir novos sons e romper com os medos que calam minha voz Quando eu puder com meu corpo alcançar cada nota do teu coração Quando a nudez do meu canto servir de acalanto pra dor de outro ser E os poemas dançarem trazendo esperanças de revolução Quando o tambor em meu peito marcar o compasso e guiar os quadris  Quando meu solo for fértil a paz e alegria não se acabarão Eu vou converter a beleza dos dias em samba-canção E trazer o meu povo bonito pra dar o refrão Renascendo de novo depois de um tempo de horror Eu vou juntar muitas amigas pra ver esse dia chegar E aí finalmente a gente vai poder se abraçar E dançar e cantar até amanhecer do amor