Olê, mulhé rendeira, olê, mulhé rendá...


"Tu me ensina a fazê renda..." Dona Maria em seu quarto, na janela, no quintal. Lavando roupas, cozinhava. Cozinhando, varria o chão. Como tantas Donas Marias, seguia a vida trabalhando, se doando para a rotina, repetindo um destino traçado no dia em que nascera e fora chamada de menina.

Mas não era assim para mim, eu, uma guria pequena e magrelinha como tripa, vivia a observar Dona Maria. Visitava com frequência sua casa, ganhava chocolates, bala e bolacha. Acho que ela pensava que era isso que me fazia voltar e ficar ali. Sim, eu comia tudo, nunca fui de dispensar doce. Mas o que me remexia era ouvir aquela mulher, que parecia não caber na própria pele quando desatava a cantar. Dona Maria era bem maior que a vida que levava. E meus olhos brilhavam sem piscar, refletindo a luz que vinha dela, de uma força ancestral, com uma voz que só poderia mesmo ser de Maria. E que não tinha limite em seu quintal. As cantigas nordestinas chegavam também à minha janela, na outra rua. Quando eu estava em casa, parava sentadinha na cama para ouvir. Não comentava com ninguém, era um prazer desses que raramente se compartilha. Ela cantava todos os dias, um repertório impecável, animado e que parecia infinito. Lembro-me de poucas letras, mas seu canto está em mim.

Essa Dona Maria, como as outras, tinha um marido para quem cozinhar, lavar, passar e esperar passar a vida. Um marido que chegava quando já era noite e eu já não poderia mais estar fora de casa. Eu mesma o vi poucas vezes. Mas sei muito sobre ele, ou sei o suficiente. Sei que ele gritava com ela. Sei que ele falava que ela era louca, que ela não dizia coisa com coisa. Sei que ele não permitia que ela saísse, não permitia que ela perdesse tempo com nada que não fosse seus afazeres. E sei que ele não gostava que ela cantasse. Talvez por isso, à noite se calava. Eu não lembrava nem de imaginar o que estaria acontecendo por lá. Apenas dormia e no outro dia, ouvia Dona Maria cantar outra vez, como o sol que nasce e a brisa que simplesmente vem.

Era fim de tarde, quando um som inesperado calou a canção. Tiro! Susto! Não atingiu pessoa alguma… Atirou para o alto, mirando bem no céu e acertou em cheio a nuvem, assassinando a poesia. A bala, que não chegou ao corpo de Dona Maria, causou-lhe graves ferimentos na alma de forma que ela, não sei se por dor ou protesto, nunca mais cantou.

Ouvi que ela morrera anos depois, ouvi que está viva, mas toma remédios controlados que a fazem passar seus dias sedada, o que não mais ouvi foi a voz de Dona Maria, exceto pela memória eterna que me faz escutar da janela toda vez que venho pra cá: “Tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar…”.


(Dezembro de 2016)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conto urbano

Cada vez menores

Carga