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Mostrando postagens de 2020

Aurora

Voltei aos poucos a sentir meu corpo. Mais vazio do que nunca. Magro e frágil, do jeito que foi preciso manter. O formato ideal para que qualquer  homem mirradinho e sem graça se sentisse forte e poderoso. Nenhum espelho em volta, mas sabia que não estava bem. A sensação de ter sido atropelada por um caminhão me dominava. Estava em cacos. Braços sem força, boca seca, cabelos bagunçados. Logo eu que já gastei tanto dinheiro e tempo com meus cabelos para mantê-los lisos, ou melhor, alisados. Nem me lembro mais como era a textura, o cheiro dele sem química, as suas formas... Só me lembro eram muitas as possibilidades, para os cabelos e para a vida. Hoje em dia, as opções se restringiam a: lisíssimo, de preferência solto e, eventualmente, preso em um penteado “chique”. Não era só estética, nunca é. Meus cabelos deviam passar uma mensagem:  eles diziam que eu era uma daquelas mulheres, que podia estar ali, fazer parte daquele ambiente. Ainda que a cor da minha pele escancarasse um ...

Resposta ao rio

Olê, mulhé rendeira, olê, mulhé rendá...

"Tu me ensina a fazê renda..." Dona Maria em seu quarto, na janela, no quintal. Lavando roupas, cozinhava. Cozinhando, varria o chão. Como tantas Donas Marias, seguia a vida trabalhando, se doando para a rotina, repetindo um destino traçado no dia em que nascera e fora chamada de menina. Mas não era assim para mim, eu, uma guria pequena e magrelinha como tripa, vivia a observar Dona Maria. Visitava com frequência sua casa, ganhava chocolates, bala e bolacha. Acho que ela pensava que era isso que me fazia voltar e ficar ali. Sim, eu comia tudo, nunca fui de dispensar doce. Mas o que me remexia era ouvir aquela mulher, que parecia não caber na própria pele quando desatava a cantar. Dona Maria era bem maior que a vida que levava. E meus olhos brilhavam sem piscar, refletindo a luz que vinha dela, de uma força ancestral, com uma voz que só poderia mesmo ser de Maria. E que não tinha limite em seu quintal. As cantigas nordestinas chegavam também à minha janela, na outra rua. Quan...

Sementes

Nos querem em luto Lutaremos Nos querem caladas Gritaremos Nos querem em banzo Dançaremos Nos querem bem longe Ficaremos Nos querem amargas Amaremos Nos querem em casa Voaremos Nos querem o sangue Sorriremos Nos querem inférteis Ensinaremos Nos querem chorando Debocharemos Mandinga Faremos Paixão Pulsaremos E se nos matarem Sementes seremos. (outubro de 2018)