“E que tal um poliamor de ilusão? Você, eu, os poemas e não esqueça de trazer o violão!”
Conto urbano
Foto de May Agontinmé O homem caminha para frente, puxando um carrinho bem cheio. Dentro do carrinho, matéria. Dentro do homem, só calma. Mesmo com a garoa que cai, mesmo com a noite que vem lentamente. Observa a placa de “para” e segue. Atravessa a rua atrapalhado pelo tráfego. Madeira, papelão e latinhas pesam. Encontra um obstáculo para subir à calçada, supera-o. De repente, para e abaixa-se olhando para o chão, parece procurar alguma coisa ou alguém ali embaixo, olha para longe por onde passou, deve estar sentindo falta da cachorrinha que ficou com medo da chuva. Aproveita a parada para organizar as coisas: madeiras nos cantos, materiais mais leves no centro, maiores embaixo, pequenos por cima, ajeita tudo aquilo como um mestre de tetris das ruas. Enterra o boné na cachola. A chuva o convida a tomar rumo. Segue, segue, segue... Quase saindo de nossas vistas, de nossas vidas... cu...
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