Conto urbano
O homem
caminha para frente, puxando um carrinho bem cheio. Dentro do carrinho,
matéria. Dentro do homem, só calma. Mesmo com a garoa que cai, mesmo com a
noite que vem lentamente. Observa a placa de “para” e segue.
Atravessa a
rua atrapalhado pelo tráfego. Madeira, papelão e latinhas pesam. Encontra um
obstáculo para subir à calçada, supera-o. De repente, para e abaixa-se olhando
para o chão, parece procurar alguma coisa ou alguém ali embaixo, olha para
longe por onde passou, deve estar sentindo falta da cachorrinha que ficou com
medo da chuva.
Aproveita
a parada para organizar as coisas: madeiras nos cantos, materiais mais leves no
centro, maiores embaixo, pequenos por cima, ajeita tudo aquilo como um mestre
de tetris das ruas. Enterra o boné na cachola. A chuva o convida a tomar rumo.
Segue, segue, segue... Quase saindo de nossas vistas, de nossas vidas... cuidando da sua, virando outra rua, numa curva fechada. Ele não sente a pressa das pessoas que buscam abrigo nos prédios. Tão pouco deseja parar por ali, há passados a serem recolhidos e reciclados. Além isso, ele ainda não sabe da Esperança, sua cachorrinha, que pode ser que já esteja em casa brincando com os moleques na sala ou talvez o aguarde na próxima esquina sentadinha e ansiosa para o alegre reencontro. Perto ou longe, ele sabia que iria encontrá-la, ela às vezes dava suas voltinhas, mas nunca o deixara sozinho muito tempo e a chuva já tinha passado.
Ele ainda
pensava nela, quando ouviu uma voz grave e incisiva:
- Ooo, Moço...
Essa madeira branca aí, me dá ela.
Era de um
passante, um homem branco, de bermuda e Nike no pé, voltando da padaria, a
julgar pela sacola que trazia nas mãos. Depois de examinar a figura, olhou para
o carrinho e respondeu:
- Essa daí não
tá pra venda não, escolhe outra.
Como que
ignorando a negativa, o passante diz:
- Eu tenho
dinheiro, eu quero essa, te pago.
O trabalhador
se irrita:
- Não tá pra
venda, já disse!
O passante não
consegue acreditar que está ouvindo um não, talvez o primeiro de sua vida e
dispara:
- Como assim?
É lixo! E eu tenho dinheiro!
- Tem
dinheiro, mas não tem madeira.
Finalmente o
passante desiste, resolve terminar de passar, mas não consegue ir embora sem
destilar mais um pouco de sua arrogância de menino grande mimado:
- Ah! Deixa!
Eu vou em uma loja e compro uma prateleira pronta.
O homem nem se
dá ao trabalho de subir o tom de voz, não é de seu interesse competir quem
grita mais. Apenas resmunga pra si e para quem pudesse ouvir:
- Diacho! Eu é
que não vou deixar a Esperança sem a casa por causa de um cabra besta desse.
(texto de
fluxo de escrita a partir da observação da rua – Oficina de dramaturgia)

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