Conto urbano

 

Foto de May Agontinmé

O homem caminha para frente, puxando um carrinho bem cheio. Dentro do carrinho, matéria. Dentro do homem, só calma. Mesmo com a garoa que cai, mesmo com a noite que vem lentamente. Observa a placa de “para” e segue.

Atravessa a rua atrapalhado pelo tráfego. Madeira, papelão e latinhas pesam. Encontra um obstáculo para subir à calçada, supera-o. De repente, para e abaixa-se olhando para o chão, parece procurar alguma coisa ou alguém ali embaixo, olha para longe por onde passou, deve estar sentindo falta da cachorrinha que ficou com medo da chuva.

                Aproveita a parada para organizar as coisas: madeiras nos cantos, materiais mais leves no centro, maiores embaixo, pequenos por cima, ajeita tudo aquilo como um mestre de tetris das ruas. Enterra o boné na cachola. A chuva o convida a tomar rumo.

Segue, segue, segue... Quase saindo de nossas vistas, de nossas vidas... cuidando da sua, virando outra rua, numa curva fechada. Ele não sente a pressa das pessoas que buscam abrigo nos prédios. Tão pouco deseja parar por ali, há passados a serem recolhidos e reciclados. Além isso, ele ainda não sabe da Esperança, sua cachorrinha, que pode ser que já esteja em casa brincando com os moleques na sala ou talvez o aguarde na próxima esquina sentadinha e ansiosa para o alegre reencontro.  Perto ou longe, ele sabia que iria encontrá-la, ela às vezes dava suas voltinhas, mas nunca o deixara sozinho muito tempo e a chuva já tinha passado.

Ele ainda pensava nela, quando ouviu uma voz grave e incisiva:

- Ooo, Moço... Essa madeira branca aí, me dá ela.

Era de um passante, um homem branco, de bermuda e Nike no pé, voltando da padaria, a julgar pela sacola que trazia nas mãos. Depois de examinar a figura, olhou para o carrinho e respondeu:

- Essa daí não tá pra venda não, escolhe outra.

Como que ignorando a negativa, o passante diz:

- Eu tenho dinheiro, eu quero essa, te pago.

O trabalhador se irrita:

- Não tá pra venda, já disse!

O passante não consegue acreditar que está ouvindo um não, talvez o primeiro de sua vida e dispara:

- Como assim? É lixo! E eu tenho dinheiro!

- Tem dinheiro, mas não tem madeira.

Finalmente o passante desiste, resolve terminar de passar, mas não consegue ir embora sem destilar mais um pouco de sua arrogância de menino grande mimado:

- Ah! Deixa! Eu vou em uma loja e compro uma prateleira pronta.

O homem nem se dá ao trabalho de subir o tom de voz, não é de seu interesse competir quem grita mais. Apenas resmunga pra si e para quem pudesse ouvir:

- Diacho! Eu é que não vou deixar a Esperança sem a casa por causa de um cabra besta desse.

(texto de fluxo de escrita a partir da observação da rua – Oficina de dramaturgia)


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