Aurora
Voltei aos poucos a sentir meu corpo. Mais vazio do que nunca. Magro e frágil, do jeito que foi preciso manter. O formato ideal para que qualquer homem mirradinho e sem graça se sentisse forte e poderoso. Nenhum espelho em volta, mas sabia que não estava bem. A sensação de ter sido atropelada por um caminhão me dominava. Estava em cacos. Braços sem força, boca seca, cabelos bagunçados. Logo eu que já gastei tanto dinheiro e tempo com meus cabelos para mantê-los lisos, ou melhor, alisados.
Nem me lembro mais como era a textura, o cheiro dele sem química, as suas formas... Só me lembro eram muitas as possibilidades, para os cabelos e para a vida. Hoje em dia, as opções se restringiam a: lisíssimo, de preferência solto e, eventualmente, preso em um penteado “chique”. Não era só estética, nunca é. Meus cabelos deviam passar uma mensagem: eles diziam que eu era uma daquelas mulheres, que podia estar ali, fazer parte daquele ambiente. Ainda que a cor da minha pele escancarasse um teor caricato, meus cabelos mostravam que eu, pelo menos, estava me esforçando para me adequar. Meu marido dizia que era bobagem minha, mas eu sabia o quanto meus cabelos crespos incomodavam a sua família. Toques, palpites e olhares podem ser tão violentos... Então alisei, pelo bem da nossa relação. Pela mesma razão, passei a usar mais as roupas que ele me dava. Aprendi a ser grata por todas as suas imposições disfarçadas de presentes.
Aprendi a dizer que me sentia muito feliz porque meu marido era um homem de mente aberta, um pintor e ainda poeta. Aprendi a antecipar e evitar qualquer aborrecimento que pudesse atrapalhar o fluxo criativo desse “grande artista” com quem tive a sorte de me casar. Todos me diziam que havia sido uma sorte. Como eu ia negar isso? Como eu poderia desejar algo que não fosse parte dos cuidados com ele, que não estivesse ao alcance do seu cartão de crédito, que não fizesse parte do nosso casamento? Uma vez, uma amiga solteira ligou me chamando para tomar um sorvete e passear no parque a sós. Eu quis ir. Mas como eu iria dizer que queria sair sem ele? Seria como afirmar que estar com ele não era suficiente, seria o mesmo que dizer que ele não me completava mais e não me fazia feliz. Eu jamais tive coragem de ofendê-lo dessa maneira. Me casei para ser feliz no meu lar, então assim tinha que ser.
E eu até que andava feliz nas últimas semanas. Eu seria mãe! Uma benção! Finalmente me tornaria algo além de “esposa do famoso fulaninho...” E hoje vejo que era isso que ele temia. Não aceitou. Nem por um minuto. Desde a revelação, muito festejada pelos avós e pelos amigos dele, engoliu a seco a novidade. Ele não queria que eu tomasse de volta meu corpo para cedê-lo a outro ser, ele não queria que eu doasse meu tempo, afeto e dedicação a outra pessoa, ainda que fosse seu próprio filho, era inadmissível que outro alguém pudesse reinar minha vida.
A discussão começou porque eu queimei o arroz. Não... Começou porque eu ousei me justificar ao invés de acatar sua reclamação. Não importa. O fato é que terminou daquela forma simplesmente porque eu estava fazendo algo sobre o qual ele não tinha controle, eu estava gerando uma vida. Consegue sentir o poder? Gerar uma vida... E mais... Essa criança tomaria meu ventre como casa e ele ainda seria moralmente obrigado a amá-la, um sentimento sobre o qual ele nada sabe. Apesar de todos os poemas e quadros falando de amor, de todas as suas amantes e do nosso casamento, essa é a realidade: ele nunca soube o que vem a ser amar alguém.
Voltei da anestesia como quem volta de uma viagem de alucinógeno; muito mais lúcida, arrancando todos os véus. Depois da curetagem que foi preciso fazer para limpar de mim o feto que era a semente dos meus sonhos, eu tive a certeza de que não dormiria mais com aquele homem. Como poderia?
Achei o espelho na bolsa e, enquanto me ajeitava, ocorreu-me: será que minha criança seria de oxum e me olharia com toda ternura que eu jamais conheci? Ou seria uma valente filha ou filho de Ogum? Iansã, Oxossi, Nanã... Não tem diferença, ela certamente seria abençoada por todos os ancestrais e orixás. E seria amada. Sei disso porque só a ideia de sua existência já me reanimava a viver, já havia mudado minha forma de enxergar todas as coisas. Esse sonho que ele me tirou a socos e pontapés não chegou a se realizar, mas abençoou meu corpo e devolveu-me minha própria vida. Transformou-me de maneira tão profunda que eu, ainda um tanto zonza da anestesia, mesmo não tendo parido, já podia afirmar que renascia naquele hospital. Essa sensação veio a mim acompanhada de um vento muito forte que fez a enfermeira fechar as janelas antes de vir conversar comigo.
- Senhora... A senhora está se sentindo bem? – Fiz que sim com a cabeça, embora fosse óbvio que não, ela apenas prosseguiu – Foi tudo certo com o procedimento e a senhora já descansou bastante. Aqui estão alguns analgésicos para as dores que podem durar alguns dias ainda. – Me entregou três caixas de remédio – É preciso evitar relações sexuais até a próxima menstruação procure se proteger. Depois disso, mas daqui há cinco meses a senhora e seu marido já podem tentar outra vez.
- Ah, sim, marido... – Eu ainda estava um pouco tonta.
- Bem, preciso perguntar uma coisa, é de rotina: como foi que aconteceu? Notamos algumas marcas...
Eu já estava ficando experiente em inventar acidentes, mas ela também já tinha ouvido muitas histórias, mal me deixou terminar a narrativa e interrompeu sugerindo que eu poderia fazer uma denúncia, se desejasse.
- Foi um acidente.
Disse e não sei por que disse. Não sei também por que não disse o que deveria ter dito. Eu só queria sair dali daquele quarto iluminadíssimo, de paredes tão brancas, eu precisava ficar sozinha, sentir meu corpo em movimento, eu precisava encontrar quem eu era ou quem eu deveria ser, quem eu estava massacrando para ser essa mulher que inventava acidentes, essa mulher que pensa que é sempre culpada, essa mulher que sabe que não é amada, mas finge que acredita nas flores dos dias pós-surra. Eu só queria ser mãe. Ele me tirou isso depois de ter tirado todos esses anos da minha vida. Não posso mais ser essa mulher.
Mas eu ainda tinha uma barreira; não podia sair sozinha do hospital e não queria sob nenhuma circunstância olhar para o rosto daquele homem. Olhei para o celular. Abri a lista do whatsapp. Quem poderia vir me buscar? Percebi que não faria sentido ligar para a família, eu precisaria me explicar. Minhas amigas de escola agora achavam que eu vivia a melhor vida que se poderia imaginar, tinham até inveja e só nos víamos de vez em quando. A distância ajudava a manter a aparência. Sim, eu também queria manter essa aparência. É preciso muita coragem para assumir o fracasso. A morte de qualquer coisa sempre me apavorou, mas nesta manhã acordei diferente, com mais medo da repetição que da mudança.
Nenhuma mensagem daquele que se achava dono do meu corpo. Até aí, surpresa alguma, ele sempre dominava nas horas do prazer, tinha o direito de me bater, de fazer exigências... Para cuidar, eu que me virasse, sempre. Chegou uma mensagem. A princípio estranhei a remetente. Era Ângela, a única mulher negra do ciclo de amigos dele. Ela era fotógrafa e estava em todos os encontros do espaço dos artistas. Por vezes, ela tomava toda atenção para si. Ele estava sempre falando mal dela e eu gostava disso porque ela me causava ciúmes. Eu até o ajudava, dizia que ela era arrogante, falava alto e rebolava muito. O fato é que Ângela é uma mulher exuberante! Ela esconde nos olhos uns saberes que ninguém acessa, ele principalmente, daí vem sua raiva.
Mas ali estava... a mulher de quem por vezes concordávamos em falar mal, me mandando mensagem: “Você está bem?”. Quando li, tive certeza do que antes apenas desconfiava: ela sabia! Podia não ter os detalhes, as datas, nem ter visto nenhum dos hematomas, mas sabia do que ele era capaz. Aqueles olhares tentando aproximação comigo nas festas, as alfinetadas que ela dava nele em toda oportunidade que tinha, ela certamente sabia e, de alguma forma, parecia querer me ajudar. Deve ter desconfiado de que tenha acontecido algo sério, porque, pela primeira vez, eu não estava lá com eles, na abertura da exposição do grupo e ele nem deve ter se esforçado para dar uma boa desculpa. Meu primeiro impulso foi de ignorar ou responder com um ‘sim’ irônico, quase como se a pergunta nem fizesse sentido. Mas eu não podia mais ser essa mulher. E precisava de ajuda. Digitei rapidamente para aproveitar a súbita coragem que me esquentava o corpo, perguntando se ela poderia me buscar no Hospital Geral sem dizer nada a ninguém.
Após dezoito minutos contados, ali estava ela, em traje de estreia, belíssima mostrando a identidade, assinando os papeis da minha saída e fazendo uma cara de horrorizada, acho que deu para compreender a situação pelos procedimentos descritos no relatório médico. Me chamou para ir, me ajudou a vestir a roupa e acompanhou meu passo lento de dor abraçada comigo até o carro. Sentei-me no banco e chorei, só podia chorar. Ela perguntava para onde íamos, ela falava dele com raiva, ela tentava me acalmar, me oferecia água... Eu só sabia chorar. Até que ela entendeu que era isso, ficou em silêncio e chorou também. Me abraçou até que nossas lágrimas cessassem e eu pudesse dizer:
- Me leve para um cabeleireiro.
Ela estranhou e tentou me convencer de que seria melhor ir para a casa dela ou de alguém mais. Falou também em irmos à delegacia. Eu mal entendia, estava mais interessada no que dizia minha intuição e completei o pedido:
- Eu preciso que me leve a três lugares, você pode fazer isso?
Alguns segundos de silêncio e Ângela, mesmo sem entender, confiou completamente em meu olhar mareado, porém convicto:
- Sim, eu consigo – E deu a partida.Paramos no primeiro ponto daquele plano que estava se arquitetando durante a própria execução. Cabelereiro ELE & ELA assim, bem simples, do jeito que eu queria. Sentei na cadeira. Me olhei no espelho. Quis chorar. Engoli.
- Raspa.
A cabeleireira não queria aceitar o pedido que eu estava fazendo. Perguntou se eu tinha certeza umas três vezes, falou do quanto minha progressiva estava linda e dava para ver que tinha sido cara e coisas assim. Precisei me levantar e dizer que iria a outro lugar para que ela entendesse que eu estava certa do que queria. Por que será que é tão difícil convencer alguém de que há muito mais alternativas do que ditam as revistas e manuais da vida?
Ângela segurou minha mão. Ela não sabia exatamente o que se passava dentro de mim, mas podia imaginar. E embora certamente sofresse com os olhares tortos das pessoas que não gostavam de seus dreads, ela sabia que pior sofrimento seria ocultar suas raízes para agradar essas pessoas. A cabeleireira cortou primeiro com a tesoura. A cada mecha que ia ao chão eu sentia uma mistura de alívio e luto. Memórias vieram também, de infância, mas principalmente de adolescência, quando eu estudava muito, já gostava de literatura, tinha muitos amigos e achava que poderia ser alguma coisa como escritora, cientista ou dançarina. E podia mesmo. Só não sei quando foi que deixei de poder. Nessa época, meu corpo passava por tantas mudanças e tudo me fazia acreditar que eu precisava mudar meu cabelo também, que não cabia mais a uma moça ter tranças ou cabelos crespos naturais, que isso me atrapalharia, mas eu era resistente, estava sempre mudando o penteado ou corte, mas só alisei mesmo quando comecei a namorar com ele.
Por um instante tive dúvidas. Ao som da maquininha e com as mãos da cabeleireira conduzindo minha cabeça a diferentes movimentos, eu pensava: será que eu enlouqueci? E se eu me arrepender do que estou fazendo? Será que estou sendo injusta com ele? Pode ter sido um acidente, ele queria me bater, mas talvez não quisesse tirar a criança. Vou ficar feia...
- Pronto, moça, já pode erguer a cabeça.
Me olho no espelho. Me vejo estonteante. Imagino brincos de argola. Sorrio. Lembro-me de minha avó quando raspou para Obá, no candomblé. Ela dizia que era uma nova vida dali para frente. Senti um arrepio. Eu já não era mais a mesma mulher.
Pagamos, saímos entramos no carro, eu precisava de um banho mais que urgentemente. Ela quase não falava, apenas me olhava como se estivesse muito curiosa pelo próximo passo. Será que teve medo de que eu fizesse alguma loucura? Deve ter tido. Mas segurou, apenas nos conduziu até a casa, como eu pedi, e ligou o som. Erika Baduh nos guiava “Too much to see, the world keeps turnin /Oh what a day, what a day, what a day....”
Chegamos, pedi para que ela me esperasse no carro, porém em outra rua, de trás da casa. Ela quase começou uma pergunta, mas eu já estava longe para responder. Entrei na casa, ela saiu com o carro. Aquele lugar que era meu mundo, que eu chamava de lar, que antes me definia e que agora não era mais que um museu de vinte dois anos de violências. Andei devagar pela cozinha. O arroz queimado ainda estava lá. Subi as escadas, fui direto para o banheiro. Tomei um banho rápido e choroso, mas de lágrimas mais lentas que as de horas atrás, já não havia desespero, apenas tristeza e ainda dor. Saí do banho, coloquei uma roupa confortável que antes usaria apenas para ficar em casa sozinha em dias frios. Olhar para aquele quarto me deu ânsia de vômito. Quantas vezes eu quis realmente transar com ele? Ah, sim, no período fértil eu queria mesmo, eu queria muito aquele bebê, já no resto do mês não sei dizer. Caminhei para o ateliê.
Quantos quadros... Quase todos não me diziam nada e agora eu tinha certeza que não era por que eu não fosse sensível ou artista o suficiente, mas porque eram uma bosta mesmo.
Uma única vez eu me arrisquei a começar um quadro. Foi numa manhã bonita em que eu acordei me sentindo particularmente esperançosa. Tinha a sensação de que tempos melhores viriam e fiquei olhando para a janela pensando sobre que coisa mais incrível é o universo que nos dá a cada dia o retorno do sol e com ele, uma nova chance de recomeçar. Peguei uma tela nova, as caixas de tinta e comecei a pintar a aurora. Seria esse mesmo o nome do quadro “A Aurora”. Ele chegou, riu da forma que eu estava segurando o pincel e da posição da tela em relação à luz. Contei a ideia, lhe pareceu muito piegas, acabou me convencendo de que pintura não era mesmo para mim.
Olhando aquelas obras, eu não conseguia parar de me perguntar se tudo aquilo estava realmente acontecendo... Será que ele ao menos gostou de mim, algum dia? Talvez sim. Talvez tenha mesmo se emocionado com minha crônica no jornal da universidade quando nos conhecemos. Mas não me amou. O amor não poderia ser tão cruel. Num dia a pessoa diz que quer te guardar para si dentro de uma caixinha e aquilo é lindo, porque é metafórico, dali a anos você está presa em uma caixa de mentiras e isso é tão real quanto a dor que você sente no próprio útero. Por causa dessa dor, meus gestos eram lentos, mas ainda sim eram fortes e definitivos. A cada tela que eu via, lembrava dos processos, quando eu tinha cuidar dele e dar tudo em sua mão sem fazer barulho para não atrapalhar, afinal ele estava pintando. Se sentia um deus criando mundos que só ele próprio habitaria por um tempo, até que fosse exposto e outro alguém inventasse um novo sentido, que ele nunca aceitava como possível, mas fingia que sim para vender, era parte da vida do artista, ele dizia. Eram festas, jantares, feiras, exposições...
Eventos, eventos e mais eventos para o que quais eu tinha que ir apenas para de ser apresentada como esposa, como se não tivesse nome e olhada com curiosidade como se eu fosse a mais exótica das obras de arte dele e não uma pessoa. Mas quando ele perguntava eu dizia que gostava e só não interagia muito por não entender nada do que eles falavam, mais uma mentira cotidiana que fazia bem para a relação, ou melhor, para o seu ego. Ele dizia “Ah, minha pequena, um dia vou te ensinar tudo”, se sentia incrível e eu me sentia nada, como sempre, mas mantinha a paz. Paz, paz, que paz? Eu quero destruir essa porra dessa paz. Ele tinha um grande espelho no ateliê e foi ali que eu olhei para o conjunto das feridas que estavam no meu corpo. Eu queria marcar o corpo dele também. Eu queria marcar a vida dele, pegar de volta meu tempo, meu poder. Derrubei o espelho no chão derrubei um quadro também. E outro. E uma escultura. E uma caixa de madeira cheia das aquarelas com as quais ele havia pintado tanta mentira. Mentira. Será que era sadismo? Será que era isso? Ele sempre dizia que eu era sua inspiração, mas isso é sempre bom? Acho que ele tinha era tesão nas minhas lágrimas, na minha submissão, no ciclo tudolindo-bate-choro-elecomprapresentes-euaceito-recomeçamos-tudolindo-bate e por aí vai... Tenho todas essas tralhas por testemunhas... Pareço a Bela que morava com a fera e só era ouvida pela mobília... Ela tinha um bule, um armário, eu aqui posso falar com esse cavalete, esse espelho, esses potes de solvente...
É isso! Solvente... Parei para ler o rótulo de um frasco e nele encontrei minha saída, uma porta mais que aberta para minha liberdade:
Solvente orgânico. Seus vapores podem irritar a pele e os olhos, causar danos aos pulmões e sistema respiratório, assim como ao sistema nervoso central quando inalados, e causa falência renal quando ingerida, entre outras coisas. Ela também representa risco de incêndios devido a ser inflamável.
Foi um milagre, eu não era mais totalmente dona dos meus movimentos, mas também não era uma marionete, me sentia guiada não apenas pelo meu raciocínio, mas por uma multidão de mulheres que estavam ali, eu sabia, eu sentia, elas iram me levantar e aquelas garrafas que estavam ali por tanto tempo, que eu nunca havia lido, eram parte da paisagem do clima belas artes que ele gostava de respirar, eram agora meu passaporte. E eu não podia mais evitar o destino.
Não tive um segundo de dúvidas... Me pus a espalhar todo o líquido pela casa. desenhando uma trilha no meu museu de mágoas. Descendo as escadas, só faltava um detalhe que eu sabia bem onde estava, assim como sabia onde estavam todas as coisas que eu precisava porque eu é que organizava toda aquela casa. A casa que era nossa, a casa que foi meu sonho, meu lar e minha prisão, também já não seria mais a mesma coisa, estava agora em chamas. Em chamas. Exatamente como meu peito, ela ardia, queimava e em pouco tempo já não estaria mais ali. Como eu.
Apressada, sai pelo portão dos fundos, levando na bolsa a caixa onde guardávamos um dinheiro para qualquer emergência e algumas joias. Ao me ver, Ângela abriu a porta rapidamente. Entrei e comentei sorrindo:
- Eu sabia que você estaria aqui.
- Você disse que eram três lugares.
Ela ligou o carro e deu novamente a partida. Diante da casa se deteriorando, entendeu que aquilo seria uma fuga. Dirigiu mais umas quadras com o coração na mão antes de me dizer qualquer coisa. Até que eu notei que já estávamos longe o suficiente e pedi para que fosse com calma para não sermos paradas. Fui guiando para o terceiro e último ponto do plano. Paramos. Agradeci a ela por ter sido minha irmã durante o dia de hoje. Ela passou a mão carinhosamente na minha cabeça e disse:
- Eu sempre soube que você era bem maior!
Tive um lapso e pedi para que ela batesse uma foto minha antes de ir. Sempre quis ser fotografada por uma artista, e não haveria melhor momento. Saí do carro e enquanto posava, pensei que para essa nova eu, ainda faltava um belo nome. Um nome para alguém que renascia aos exatos quarenta e dois anos de tempo nesta terra.
No hall da rodoviária, a dúvida: Que cidade seria palco do meu porvir? No painel iluminado, uma lista de próximas partidas. Nesses quarenta e dois anos conheci apenas centrinhos turísticos de outras cidades, nunca vi os buracos, as periferias, nunca almocei onde almoçam os trabalhadores de uma outra cidade. Fechei os olhos e decidi que iria para a primeira cidade a brilhar no painel quando eu o olhasse. Destino...
Agora, da janela do ônibus, vejo a estrada, ela será meu lugar pelas próximas horas e quem sabe das outras viagens que virão...
Olho para a foto que Ângela me enviou antes que eu desativasse o número. Sou eu na calçada, em frente à rodoviária, com roupas confortáveis e um olhar lindo que eu mesma não conhecia. Ainda há tanto a me conhecer. Já é madrugada. Daqui a pouco vem o sol e com ele minha nova chance. Nunca pintei um quadro, mas neste instante me sinto tela e artista criadora de mim. Prazer, meu nome é Aurora!
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