Maputo, a terra dos Poetas D’alma
Quem esteve por perto sabe que minha última virada de ano foi marcada por uma tempestade emocional muito pesada que me paralisou e me fez recalcular a rota. A tempestade se atenuou quando decidi que deixaria de dedicar tantas horas da minha vida à escola e voltaria a me nutrir de arte. Parece que ela, a tempestade, só queria mesmo me guiar em direção a mim mesma.
O convite de Féling Capela @felingcapela para participar do Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas, Poetas D’alma @poetasdalma , em Maputo, capital de Moçambique foi um presente para mim. E um sinal de que eu havia decifrado bem a mensagem.
O curta “Mergulho” @mergulho.ofilme , do Marton @martonolympio, também foi aprovado e seguimos juntos para mais essa aventura. Depois de tantas vezes que viajamos para descansar e conhecer lugares, desta vez estaríamos juntos também a trabalho. O visto quase não aconteceu, chegamos a achar que não conseguiríamos mais, até que Ogum se fez presente e na sexta-feira, soubemos que poderíamos viajar no sábado, o visto saiu naquele dia, depois de mais de 60 dias de atraso..
Maputo é uma cidade litorânea e urbana, onde se encontra o melhor frango do mundo, em cada lugar com um molho diferente, e ainda tem o piri-piri. Matapa, xinguinha, mariscos… Além da culinária, a efervescência cultural é uma delícia.
Fala-se um português mais próximo do falado em Portugal, porém com alguma influência das línguas nativas que seguem sendo usadas. Vi muitas pessoas conversarem em Changana, por exemplo. Os estrangeirismos ingleses também são muito usados, segundo “a malta”, isso acontece pela proximidade com países onde o Inglês é oficial. Ir de Maputo a Johanesburgo (capital da África do Sul) é como ir de São Paulo ao Rio de Janeiro, então há muitas trocas.
A independência de Moçambique se deu em 1975, após 10 anos de guerra contra os 500 anos de colonização portuguesa. Uma revolução comunista, por isso, as ruas e avenidas de Maputo homenageiam personalidades como o próprio ex-presidente Samora Machel, Amílcar Cabral, Karl Marx, Lênin, Mao Tsé Tung, Kim Il Sung entre outros.
O bairro da Mafalala tem uma história muito importante, que conhecemos através do Ivan @ivan.laranjeira , diretor do Museu da Mafalala @mafalalamuseu . Ele nos contou que tratava-se, antes da independência, de um bairro de operários, dos quais os mesmos só poderiam sair basicamente para trabalhar (me lembrou nossa antiga lei da vadiagem), e onde as casas foram feitas de zinco, um material péssimo para moradias, porque era mais simples de derrubar, caso os senhores assim decidissem. Hoje ainda há casas de zinco e outras de alvenaria. Lá, principalmente em um ponto específico, embaixo de uma grande árvore, se reuniram grupos de resistência política e cultural. Lá também viveram personalidades importantes da História moçambicana, como os autores literários Noêmia de Sousa e José Craveirinha, os jogadores Hilário Conceição e Euzébio Ferreira e o presidente Samora Machel. Quando forem a Maputo, não deixem de conhecer as ruas da Mafalala e visitem o Museu. Lá foi realizada boa parte do Festival Poetas D’alma.
No círculo onde caí (ou me joguei), conheci muita gente incrível, não só de Moçambique como da Angola, África do Sul, de Reino de Eswatini , do Brasil, Alemanha, Bélgica, Suiça, Portugal e da Itália.
Foi lindo rever Paola @paolaprandini , que me acolheu em sua mais nova terra e me levou pra um rolê impublicável (kkkk). Adorei conhecer suas amigas. Alías, Clélia, te aguardo, hein…
O mundo tem que conhecer a palavra poderosa do poeta pan africanista e revolucionário, Mak Manaka @mak_manaka , de Kwazi Ndlangisa @kwazipoetry e de Ivandro Sigaval @o_discipulo_do_sigaval , os gestos do corpo poético de Senetisiwe @senetisiwe , os olhares sensíveis de Átila, Júlio Dengucho @juliodengucho , Dino, Carla Cortês @realcarlacortes e Ilária @ilariaturba, o piano de Bhaka @bhaka_yafole , as vozes e instrumentos típicos de Hilário Manhiça e seus companheiros e as performances potentes e críticas pesadas de Fisherwoman @fisherwoman_oficial , Joyce Zau e Sandra Bande. Nesta edição, outras duas brasileiras participaram também: a cineasta Ariadine Zampaulo @ariadnelz e a poetiza, cantora e performer Yurungai @_yurungai, duas artistas incríveis que ainda quero encontrar em solo brazuca.
Nas plásticas também temos Carina Capitine @ccapitine que é uma ceramista fantástica (confiram: @kappausse) de carisma inigualável, foi Mestre de Cerimônia do Festival. A outra MC foi Mary Dias @im_mary_dias que também tem uma marca de roupas: @lojasocialmz. Não dá pra deixar de reverenciar o excelente trampo de Yannick - aguardem para ler ou assistir esse filósofo que será um fantástico roteirista, se quiser- e Stesha ,que estuda engenharia, mas se quiser também pode ser produtora de cinema. Além do festival, também ouvi Miguel Xabindza @miguelxabindza , que canta demaaaaaais e é um fofo.
Fora dos palcos do Festival, as lindezas continuam: quando forem à Maputo, visitem o Instituto Camões e tomem um café com o Matteo , sabe tudo (TUDO) de literatura e de sanduíches também. Ainda falando de livros, trouxe cinco para casa, dois são do Mélio Tinga @melio_tinga , autografados e tudo (tô devendo pra ele um almoço em São Paulo) - e três foram emprestados carinhosamente pela Carina ,que prometeu vir buscá-los no Brasil (não vejo a hora), aguardem as resenhas de todos os livros por aqui. Tem o meu mais recente amigo de infância, extraterrestre em missão de paz, o Tavares , jornalista de mão cheia que foi comigo ao show do Azagaia @manoazagaia , este último é um músico pesado que vale muito a pena conferir nas plataformas.
Me apaixonei pelas pinturas de Chaná de Sá @chanadesa e trouxe para casa uma de Kass Kass (está em uma das fotos e é uma “sala de aula” de educação infantil).
Falei aqui das pessoas de quem estive mais próxima, mas recomendo que vocês sigam a página do festival e também de todos os artistas.
Devo dizer, para sentir o intraduzível que sentimos lá, só atravessando o Atlântico para o Índico.
Falando em Oceano, amei conhecer o Índico com a dona da porra toda, a Carla Chire @chirecarla , que me levou até lá junto com o Féling. Este aí já está lendo com ciúmes porque falei dele só no início (hahaha). Gente, ele e o Átila deram nó em pingo d'água para que o Festival acontecesse e cuidaram de nós até o último minuto em Maputo.
Féling, querido, você não tem dimensão da chama que acendeu no meu peito, não à toa choramos na despedida. Você disse para eu me cuidar e ficar bem, eu não vou ficar bem não, vou ficar “the boss” igual a ti e ainda vou trazer o Poetas D’alma para o Brasil.
Já sou outra pessoa, transformada que fui pela experiência.
E ainda volto a Maputo porque “Maputo é maningue nice”.
"Khanimambu"

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