Vidadentrodevida
Paixão... palavra que não me
define, mas interpreta sozinha a maior porção do que sempre fui.
Fui menina, muito curiosa, muito
atrevidinha, muito de ponta cabeça para o mundo. Sonhava em ser palhaça, queria fazer rir. A
mãe, as tias, a vó, o pai, mas, principalmente, as outras crianças me educaram.
Ergueram-me ao pódio de “maluca”, honra que procuro cultivar sempre.
Sempre quis ser diferente. Não
por loucura, mas pela sensatez de pensar que o que o mundo é está longe do que
devia ser. Lendo e vivendo descobri que meu impulso não era novo, já
atormentava outros seres humanos dos tempos antigos até agora. Uni-me então a
grupos, um em especial, em que conheci garotas e garotos tão atormentados
quanto eu. Entre eles, uma grande amiga que até hoje me acompanha, uma artista
e arteira da vida que me faz sempre refletir sobre o que é ser mulher, do batom
ao útero. Os demais ficaram por lá, para mim são memórias, boas, mas ainda
memórias. De pessoas que sumiram quando a maior de todas as vidas dentro da
minha estava para acontecer.
Aconteceu que engravidei aos 16.
Vergonha e desespero se misturavam no liquidificador que se tornou minha mente.
No peito, muita angústia, na barriga, só o enjoo. Vida dentro de vida,
centímetros, quilos, vitaminas, ultrassons, pés, placenta, distribuição
sanguínea e aos poucos me sentia egoísta em ter pensado um dia que poderia
pensar em mim quando ele estava ali tão mais frágil, tão delicado. Resolvi
deixar de lado parte do EU pra ELE nascer. Decidi e me revirei da cabeça ao
quarto todo, montei os móveis em uma só tarde, sem muita ajuda, com alguma coragem.
Assim me fiz pronta pra qualquer guerra que fosse, fosse ter, fosse não ter.
Assim tornei-me mãe de um tão sensível ser.
Ser mulher depois disso, pareceu-me até bem fácil. Está claro, escrito na testa, que no peito só entra o que me for de direito, quem tiver respeito e amor pra dar. Vivi alguns amores, quentes todos, mas distintos entre si. Confesso que já esperei príncipe. Na minha cachola era artista, cabelos compridos, signo de “peixes” e desarrumado. Nada de cavalo branco, mas não deixava de ser príncipe, ao menos seria encantado. Paciência de esperar se esvaiu, me fiz meu próprio meio e metade, de forma que continuo amando o amor, mas só amo se for verdade. Nunca serei completa, mas sou “uma”, tenho asas e só me dou a quem se atreve a voar junto.
Junto tenho vivido muito,
sonhando sem “enquadradar” futuros. Ensino e educo por que mexe comigo mexer
com os outros. Hoje, são minhas pretensões / pretextos: estar na luta que é
constante, infinda e linda, respirar música, devorar literatura e beber teatro.
Não tenho finalidade, até por que não quero “fim”. Satisfaço-me com os
processos desses inúmeros projetos que se ligam traçando caminhos.
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