Tempo de jardim

 

É domingo. Tânia varre a frente da casa, um afazer rotineiro e um momento que ela aproveita para pensar na vida, planejar as aulas da semana,  cantarolar... Geraldo, seu vizinho, está do outro lado da mureta e observa os movimentos de Tânia. Ele tem seus afazeres também, mas, como já disse, é domingo, e esse é um dia que Geraldo vive com muita tranquilidade. 

- Vai um cafezinho, Tânia?

- Ah, Fica pra outro dia, Geraldo, já tomei o meu cedinho e daqui a pouco chegam as crianças.

As crianças de Tânia já são bem grandes e já têm até outras crianças. Seus filhos, netos e noras vem visitá-la todos os domingos. Almoçam, brincam, discutem, lavam louça e levam marmitas para a segunda-feira.

Já de noitinha, seu filho Tião arruma a cozinha enquanto a neta adolescente dá um jeito na impressora da qual Tânia se queixara. Na despedida geral, o pequeno Bernardo, como sempre, não quer ir embora da casa da avó. Ela ama a birra de amor do moleque, mas não pode deixar  que ele fique porque vai trabalhar cedo no dia seguinte. Tião então se lembra de perguntar:

- Mãe, falando em trabalho, e sua aposentadoria? Aquele dia enviamos os documentos, como está o processo?

- Ah, meu filho, esquece isso, eu nem penso, essas coisas demoram tanto.

Já sozinha, Tânia vai até a cozinha e dá uma ajeitada nos detalhes, eles nunca arrumam direito, ela precisa deixar do seu jeitinho. Volta para as atividades dos alunos, imprime, organiza, reflete, lembra que vai precisar de mais materiais e arruma tudo na bolsa-sacola. Depois prepara com carinho a roupa do dia seguinte.

De manhã, Tânia já se arruma, escova os dentes, passa um batom, manda um meme de "bom dia" no grupo da família, pega as coisas de trabalho e sai. Já  está fechando o portão quando avista Geraldo, com uma sacola de pão na mão, eles se cumprimentam e ele a convida, como sempre:

- Um cafezinho, Tânia? Eu passo num minuto...

Ela tranca o portão com pressa, ajeita as coisas que carrega e antes que ela responda, ele antecipa:

- Já sei, Dona Tânia… "Outro dia..”  Mas olha... O dia que você provar meu cafezinho, Dona Tânia….

- Ah, Geraldo, vai ficar pra outro dia mesmo, viu... meu ônibus passa em cinco minutos. E segue seu rumo no passinho paulistano.

Tânia chega na escola. Barulheira de crianças no pátio. Eles acenam para ela sorrindo e alguns chegam perto para abraçá-la. Ela já percebe quem veio e quem faltou. "A Yasmin vai perder mais essa atividade, por que essa menina falta tanto?" Vai pensando isso  e entrando na sala dos professores, onde cumprimenta a todos com alegria. O livro-ponto fica na sala da direção, ela precisa assiná-lo, como todos os dias.

Eis que a assistente de direção sai da sala fazendo o maior alvoroço, tirando a caneta da mão de Tânia e puxando seus braços para dançar, como se comemorasse algo.  

- Tânia, hoje você não pode assinar mais. Sua aposentadoria foi publicada em diário oficial!!!

A diretora e os colegas também ouvem e aparecem muito felizes por Tânia. Um professor a parabeniza, todos vem abraçá-la, e os pedidos são de que tem que ser feita uma festa. "Que matavilha!!!"

Mas Tânia não entra na mesma emoção, ela está baqueada, sorrindo por reflexo e abraçando por educação. 

A assistente parece não notar o choque de Tânia, entrega a impressão do diário oficial com a publicação. Sem acreditar no que vê, ela dispara a tentar convencer a chefe de que precisa dar aquelas aulas:

- Mas eu trouxe as atividades, eles vão adorar, eu coloquei os personagens que eles pediram. Olha aqui, é a Pequena Sereia!

A diretora resolve a questão pegando as folhas e entregando para uma professora substituta.

Tânia não teve nem ideia e nem teria coragem de ir se despedir de seus aluninhos naquele momento. Era como se estivesse em um sonho ou um filme. Finalmente entende que o mais certo a fazer é ir embora. Afinal, estava escrito no DIÁRIO OFICIAL. E vai...

Seu corpo atravessa do portão para fora, seus olhos se tornam nascentes. Ela lembra de mandar a notícia no grupo da família “saiu a aposentadoria”. 

Como na escola, os familiares começam a comemorar e dar os parabéns para Tânia. Ela imagina as reações, por isso nem visualiza mais, fecha o aplicativo, um tanto nervosa. Seu filho começa a ligar. Ela desliga o celular, guarda-o no bolso e segue. Resolve voltar a pé, precisa caminhar.

Chega ao portão de casa. Vê Geraldo, na casa ao lado, cuidando do jardim. Ele estranha a presença dela tão cedo e brinca:

- Voltou, Tânia? Ainda dá tempo de tomar um café, viu...

Ela nem assimila a fala, está introspectiva, entra em casa sem dar palavra. Deixá-o lá fora com seu sorriso pra poder, enfim, viver sua dor. Ao entrar em casa se escora na porta, e vai escorregando enquanto as lágrimas escorregam por sua face. Deixa cair sua sacola de trabalho e a bolsa. Pega o papel da publicação do chão e lê mais uma vez: “Aposentadoria deferida à funcionária Tânia de Souza...”.

Respira fundo, enxuga as lágrimas e abre a conversa com Tião no celular. Ele já havia ligado três vezes. Manda um áudio “Meu filho, eu estou tão perdida”. Tião liga para a mãe  que desta vez atende. Tião está com voz calma, diz que saiu um pouco do serviço para falar com ela. Quando entende os sentimentos da mãe,  ele tem uma ideia e pede para que ela vá até o quarto e pegue a mochilinha dele que ela guardava no armário. Ela obedece o filho. Ao olhar para a mochila, sorri. Ele traz uma memória de infância de quando se mudaram para a cidade. Eles eram do interior e foram para a periferia da cidade grande após Tânia ter passado no concurso público. No primeiro sábado, após uma semana sem seus amigos e primos, ele, que tinha 8 anos, tentou fugir de volta, iria para a rodoviária e tinha intenção de pegar a estrada com aquela mochilinha, levando duas camisetas, o minigame e três pacotes de bolacha. Ela relembra com orgulho:

- Não chegou nem na esquina...  eu já estava lá!

- E eu estou aqui, mãe. Nós todos estamos. Naquele dia, você não brigou comigo, você me levou para o parque de diversões, um enorme que eu nunca tinha visto na vida e disse “Tá vendo a roda-gigante? É igual a vida da gente; roda, muda o cenário, assusta, alegra.. o jeito é aproveitar o movimento. Vai brincar, vai...”E eu entendi.

            Tânia se emocionou nostálgica e foi voltando a si. Seu filho acabara de decolver a ela uma lição importante que ela, ali, havia esquecido. Agradeceu-o por isso e brincou com ele:

- Mas agora você que tem que ir trabalhar, falta muito pra sua aposentadoria.

Os dois riem e se despedem.

Ela enxuga, mais uma vez, as lágrimas, essas secam mais fácil,  já são fruto de outra emoção.  Vai se recuperando, coloca o recorte do diário oficial na mesinha. Segue até a cozinha e começa a pegar as coisas para preparar um café. Água já no fogo, ouve uma música vindo de fora. É o violão de Geraldo, tocando uma do Gilberto Gil. Ela tem uma ideia. Ela guarda os potes, desliga o fogo pega dentro do forno o bolo de laranja que sobrou do dia anterior. Sai de casa e toca a campainha do vizinho com o bolo nas mãos. Ele abre a porta e, ao vê-la no portão, um largo  sorriso que ilumina qualquer manhã nublada. Retribuindo o sorriso, ela pergunta:

- E aquele cafezinho, Geraldo?

-Entra que vou passar um quentinho pra você, Tânia!


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