Mosaico

 Eu tenho muita história pra contar. Mas não hoje. Me dedico agora e outra artesania. Estou juntando cacos. Cacos de vidro, louça, cerâmica, azulejo. Ando por aí e os encontro sem querer. Na calçada, na sua casa, no bloquinho de carnaval. Eles caem em mim como confetes, eles também arranham meus pés descalços quando piso cansada no chão da praça. Sabe aquele mosaico que sua mãe fez na mesa de pedra? Estou também fazendo um. Tem muitas cores, tem tampinhas, tem miçangas, tem brilho, tem lascas que expõe ladinhos não pintados, e entre eles tem espaços, vãos que podem ser rios de sentimentos ou simplesmente silêncios. Cores frias, cores quentes, preto, branco. No cantinho, sem querer, juntei tantos cacos da mesma cor magenta que formou-se um coracão. Que bobeira, né, essa figura coração que nem com um se parece. É a mesma coisa que a gente faz com o amor. Inventa um formato falso menos complexo, mais fácil de desenhar. Faz parte da empreitada humana no mundo querer entender o amor.


No mosaico, junto velho com novo. Cada lasca, uma história. O passado ali se pinta, feito das garrafas quebradas, dos quadros há muito retirados das paredes, de páginas de livros, de versos memes e músicas que já foram nossos e não são mais de ninguém. 


Hoje, acabo, observo os detalhes, viajo nos formatos, Nas distâncias, nos porquês. A massa está fresca, meus olhos também são úmidos. 


Amanhã olharei pra mesa e verei isso: uma mesa. Bela, digna de um quintal com sol. E observarei em partes.


Mas dia alguém virá a minha casa e talvez nela. A essa altura eu já a olharei como um todo, sem mais me ferir com as lasquinhas, sem mais me ater aos cantos estilhaçados. Sem notar os desenhos que se formam nos cantos. E terei prazer em falar da beleza do mosaico feito apenas da minha versão de uma história cheia de cores, brilhos e vãos que nunca poderão ser preenchidos.

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